***RUI BARBOSA***

***RUI BARBOSA***
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." (Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)
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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Cartas ao Simão - 29/09/1963







A história de Resende contada sucinta e agradavelmente em formato de carta por um dos maiores conhecedores de nossa terra: Pedro Braile, neto.

"Cartas ao Simão" era uma coluna publicada no semanário "A Lyra", jornal de Resende que circulou, ininterruptamente,  por mais de 100 anos.

Este texto foi escrito aos 29 de Setembro de 1963 em comemoração aos 162 anos da elevação de Resende a categoria de Vila.
Reproduzo-o em seu cinquentenário de publicação, por conta da comemoração neste ano de 2013, dos 269 anos de Fundação, 212 de Vila e 165 de Cidade com o intuito de passar a todos, principalmente aos mais novos resendenses, um pouco de informação sobre nossa História.

É digno de nota observar que na capa da publicação vê-se a Usina Hidrelétrica do Funil (Furnas), sendo que essa obra estava em sua fase inícial em 1963 e o ilustrador Jandir Queiroz usou a planta original da CHEVAP para basear seu desenho, que aliás reproduz com perfeição a obra pronta como a vemos hoje. A Hidrelétrica do Funil só entrou em operação em 1969.

Também não podemos deixar sem destaque o prólogo escrito por Arísio Maciel, do qual destaco esse trecho: 

"Se Resende tem um passado de glória, se guarda no bojo de suas tradições um sem número de fatos e feitos que engrandeceriam qualquer história, que valeria se se perdessem nos escaninhos do tempo e não chegassem aos "de hoje" ou dos que ainda virão?"

Há ainda na página 2, a dedicatória manuscrita que "seu" Pedrinho fez para a família Maércio Alves, citando todos os seus membros.
 
Pedro Braile, neto (*1906  +1971) mais conhecido como "Seu" Pedrinho, dentre muitas atividades, foi comerciante, político,  jornalista tendo fundado e redatoriado jornais,  foi o autor intelectual do Almanaque de "O Municipal" 1944 - Resende no seu Duocentésimo ano de existência. Era uma pessoa muito querida, não só pela sua dignidade, como também por ser inteligente, culto, de prosa agradável. Era amável, simpático, educado e gentil. Um dos mais aplaudidos intelectuais de seu tempo. Casou-se em 22/12/1928 com Martha Palhas, conhecida como Da. Coração, por sua bondade e dedicação a todos que a procuravam. Do casal nasceram dois filhos: Pedrita e Pedro Márcio Braile.

           Clique na imagem abaixo para abrir a apresentação.



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Governo Aarão S. Rocha - 1967/1971



Dr. Aarão Soares da Rocha governou Resende em dois mandatos, ambos conquistados em eleições pelo voto popular: De 31/01/1967 a 31/01/1971 e de 31/01/1973 a 31/01/1977. 
O pequeno folheto que mostramos aqui refere-se a prestação de contas do seu primeiro mandato (1967/1971), onde se vê que apesar dos parcos recursos, com uma administração séria, honesta,  enxuta e a vontade férrea de trabalhar em prol da nossa terra, desenvolveu um governo de muitas realizações e que se mostram importantes até os dias de hoje. O detalhe importante é que esta prestação de contas foi feita após o término do mandato, com recursos do próprio prefeito; e ao completarem-se 42 anos de sua publicação e distribuição, por sua importância, torna-se um documento Histórico, que pode servir de exemplo para governantes atuais e futuros, e também fonte de pesquisa para historiadores e estudantes. Foram muitas novas ruas e avenidas calçadas e asfaltadas, escolas rurais, postos de saúde... Leia com atenção e se surpreenderá com tantas realizações.

Além das muitas obras descritas neste folheto, uma das mais importantes é a que consta nas "Considerações Finais": A constituição legal da DUFIL "(...) para instalar-se com sua fábrica de filmes.". Esta empresa, DUFIL, foi a precursora da Polo Industrial de Resende, pois instalou-se naquele terreno, tornando-se mais tarde a Fábrica de Filmes Sakura, vendida posteriormente para a gigante Kodak, a primeira indústria de grande porte a se instalar em Resende e em cujas instalações funciona hoje a UERJ. 


Filho do Coronel João Soares da Rocha e de Da. Rita Maria Ferreira da Rocha, Dr. Aarão nasceu em Resende no dia 26 de Julho de 1910. Formado em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura de Lavras (MG); muito antes de entrar para a política já era grande fazendeiro criador de gado leiteiro, seguindo os passos do pai e do avô, Pedro Soares da Rocha. Casou-se aos 10/12/1936 com Da. Hulda Vilhena dos Reis.



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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Hans Israel Hirsfield


Inesquecível história real sobre um homem por quem sempre nutri grande admiração. 
Publicado no "O Ponte Velha" em 2007.

                                                                           Imagem: internet


         Era um tipo diferente e estranho aquele... Homem de poucas palavras, aparentando ter passado dos 50 anos, muito alto, magro, braços enormes com números tatuados em azul na altura de um dos punhos (que se via de relance), pernas muito compridas, cabelo grisalho cortado bem curtinho, rosto vincado; marcado pela dura vida passada. Nariz afilado com uma verruga numa das narinas, boca grande, orelhas maiores ainda, olhos pequeninos, que às vezes brilhavam de maneira vívida, outras ficavam meio que embaçados, tristes, distantes, parecendo perdidos em lembranças de momentos fortes, com traços de cansaço. Olhar  que eu percebia através dos óculos “fundo de garrafa” com grosso aro preto, assim como seu chapelão redondo, de feltro, enterrado até a testa e cuja aba lhe cobria quase a metade dos ombros, mas que certamente o protegia do sol. Estava sempre com um surrado paletó preto “risca de giz” e camisa abotoada até o pescoço, porém sem gravata. Usava invariavelmente um mesmo par de sapatos social preto (que já tinham tido lá seus dias de glória), encadarçado com barbantes, meias que haviam sido brancas  e amarelaram com o passar dos tempos, a boca dos canos esgarçadas e arriadas, deixando à mostra parte dos ossos do calcanhar. Calças largas de linho cinza, presas à cintura por um cinto de cor indefinida, de onde saía uma língua de couro que lhe caia até quase a metade da coxa, com a bainha sempre presa por elásticos pra evitar um enrosco na corrente da bicicleta; uma Philips preta (seu único meio de transporte), com banco de couro e molas, que rangiam a cada pedalada, e, um guarda-chuva enrolado, eternamente preso ao quadro da mesma. No porta bagagens, uma caixa de madeira que usava para carregar os ovos que vendia. Morava lá na Fazenda da Barra, numa pequena propriedade rural na comunidade judaica, perto da chácara do “tio” Maércio, onde passávamos as férias escolares. Era de lá que o conhecia desde os anos 50. Mas o fato que vou narrar, se deu por volta de 1965. Pois é... Eu já era bancário, apesar da pouca idade (15 anos) e trabalhava como contínuo. Aliás, registre-se que naquele tempo, TODO o serviço bancário era manual, viu gente?! Nada de computadores ou algo que sequer se aproximasse disso. As máquinas mais modernas que tínhamos por lá eram elétricas: uma de escrever e outra de somar! Caneta só tinteiro. Esferográfica era coisa a ser inventada.
            Na época, o expediente bancário para o público começava as oito da manhã e terminava as quatro da tarde, sem intervalo. Normalmente eu saía pro almoço por volta de onze e meia e retornava próximo de uma da tarde. Fazia minhas refeições, rapidamente, no extinto e saudoso Bar Caçula, indo em seguida pra loja de meu pai, na Alfredo Whately (Casa das Miudezas) para que ele e meu tio (João) pudessem almoçar. O tio voltava logo, pois morava perto. Meu pai comia em casa também, mas um pouco mais distante (na Eduardo Cotrim) sem hora certa pra voltar. Nesse espaço de tempo, a loja ficava sob minha responsabilidade. Pois bem... Certo dia, o “seu” Hans, vai ao Banco e o atendo no balcão. Acho que era um depósito (o pior era escrever o nome Hirsfield, com aquela caneta de pena que a gente molhava no tinteiro e às vezes borrava tudo.) Atendi-o em alguns minutos e ele saiu. Logo a seguir, deu minha hora de almoço. Após a rápida refeição, fui pra loja  cobrir o horário do pai e do tio. Lá eu tirava a gravata e paletó que usava pra compor o tipo “bancário”. Nesse meio tempo em que estava sozinho, entra o “seu” Hans. Ele me dá uma lista de coisas que precisava: arame, pregos, parafusos, etc. Comecei a separar a mercadoria e notei que ele me olhava de maneira esquisita. Levei uns vinte minutos pra atender seu pedido, embrulhar, receber e fazer o troco. Foi embora me olhando meio enviesado. Parecia desconfiado... Não demorou pro tio João chegar. Comentei  sobre o freguês e ele me disse que “seu” Hans era assim mesmo, meio esquisito. Voltei imediatamente pro Banco. Passados uns quinze minutos, entra o “seu” Hans novamente e o atendo. Queria falar com “a Maércio”... Expliquei-lhe que ele estava em horário de almoço, mas não devia demorar. Sentou-se num banco de madeira que tinha lá e ficou me olhando fixamente um bom tempo. Eu já estava até meio sem jeito quando bruscamente se levanta, vai até o balcão onde eu estava e  pergunta com aquele sotaque carregado: “Você ter uma irrmaum???” Pra não ter que ficar explicando o acidente que tinha vitimado minhas duas irmãs recentemente (o assunto me incomodava muito!) disse-lhe que sim. Ele só balbuciou um “Aah!!!” E voltou a se sentar. O tio Maércio chegou e eles sumiram na sala da gerência. Não o vi mais naquele dia. Algumas semanas depois (ele ia ao Banco com freqüência, e sempre me olhava de esgueio) eis que se dirige a mim e pergunta: “Sua irrmaum sumiu do loja de sua babai. Que houve?” Aí caiu a ficha... Eu, muito ordinário e sem-vergonha, disse que ele estudava fora. Limitou-se ao tradicional “Ah!!” e calou-se. Dias depois, volta e me diz: “Nunca via irrmauns gêmeas tão iguais no meu vida, querria tanto ver as dois juntas. Quando ele vem?”. Como consegui segurar o riso, não sei. Mas respondi, sério, que não sabia. E tratei de sair de perto. Fui rir no banheiro... Não é que o danado foi falar com meu pai? Uns quinze minutos depois; telefone pra mim. Meu pai pede que vá até a loja. Urgente!
Fui... me borrando de medo! Sabia o que me esperava... “Mentiroso e safado” foram os adjetivos mais leves que meu pai usou contra mim. “Pede desculpas pro “seu” Hans...Anda!” E cascudo comendo solto... Desculpas cabisbaixas pedidas, “seu” Hans sai sorrindo (nunca o tinha visto sorrir!) e dizendo: “Náu bate muito nela náu, ela serr muito inteligente e brincalhona!”. Pra encurtar. Levei mais uns tabefes à noite em casa, peguei 15 dias de castigo (sem cinema e clube) e toda vez que o “seu” Hans ia ao banco ou à loja, me refugiava no banheiro. Pra rir... de vergonha!!!

Aproveito para me solidarizar com as vítimas do Holocausto, pois foi vendo o noticiário sobre o toque de silêncio em Israel no dia 16 p.p. que me lembrei dessa história do Sr. Hans Israel Hirsfield, que não vejo já há muitos anos, mas por quem guardo muito respeito, carinho e admiração. Apesar da brincadeira dos gêmeos...

Shalom aleikhem. 


ÓFernando Lemos – 19/04/2007

sábado, 15 de junho de 2013

RUA PADRE MANOEL DOS ANJOS - Uma Releitura da História de Resende


Rua Padre Manoel dos Anjos esquina com a Rua do Rosário - 14/06/2013


                É recorrente para quem pesquisa história, começar uma busca e se deparar com detalhes que nada tem a ver com o que se quer saber. E foi assim, pesquisando não sei nem mais o que, que observei um detalhe interessante sobre o padre mencionado no título deste texto, e (embora surpreso) tive a certeza de que tivemos dois padres com idades e nomes  assemelhados, mas que ficou registrado errônea e injustamente na história que se ensina e se publica, como apenas um, que recebe as homenagens que devem ser prestadas a outro. Senão vejamos:

1- Padre Manuel Seraphim dos Anjos (Prestou serviços em Resende entre 1807 e 1819):
Segundo Itamar Bopp em seu livro de 1973 (Notas Genealógicas de Vigários e Padres na Paróquia de Resende, Casamentos de 501 a 602 e 701), esse padre nasceu na Vila de Sorocaba,  e foi batizado em 1765, e seria ele o padre homenageado com o nome da rua no bairro Lavapés. Foi esse cidadão ordenado padre em 26/04/1787, aos 22 anos ou em 1796 (31 anos). Mas, curiosamente, o genealogista não faz neste seu livro nenhuma referência à fundação da Santa Casa de Resende (outrora Casa de Misericórdia) por este padre. Diz apenas que: “...cuja lembrança se eterniza em inequívocas demonstrações do seu valor...”  (pag.37) e que “...devia ser muito querido das famílias importantes da época ...” pois realizou os casamentos do Comendador Bento de Azevedo Maia[¹] e outras figuras de destaque na época (Bento Maia se casou em 11/06/1808). De fato, encontrei diversos registros de casamentos e batizados realizados por esse padre em outro livro do mesmo autor, editado pelo Instituto Genealógico Brasileiro em 1971 (Casamentos na Matriz de Resende – 300 a 500), mas nenhuma referência ao trabalho dele junto à Santa Casa de Misericórdia Resende, fundada em 1835; quando Manuel Seraphim dos Anjos já estaria com 70 anos completos, considerando-se ter nascido no ano de seu batismo, 1765. Itamar Bopp também não faz referência no primeiro livro acima citado, sobre a cor e como vivia esse Manoel dos Anjos, mas dá grande destaque para o bairro Lavapés e a rua em questão.
Acho no mínimo estranho a falta dessas informações no livro de um genealogista cuidadoso e minucioso como era Itamar Bopp, pois em fichas de seu arquivo de anotações, existem esses detalhes anotados,  e numa delas, foi riscado (na ficha) o detalhe da cor “preta” (ficha 2252-v) e está anotado ainda que “... nome [da rua] dado pelo povo por residir naquele local o Padre Manoel dos Anjos, preto, que veio de Areas, com fama de construtor e de entendido em construções de Igrejas.” Aí cabe a pergunta: Porque Itamar Bopp omitiu essas informações no seu livro de 1973 se ele as possuía? No mínimo, estranho. Talvez por dúvida, já que na ficha 2394-v ele anotou claramente a relação deste Manuel Seraphim dos Anjos com a fundação da Santa Casa.
Curiosamente, esse padre ministrou os sacramentos somente até por volta de 1819, não tendo batizado o Dr. João Maia, mas suas irmãs Escolástica (1813) e Ana Claudina (1817).
Como o Dr. João Maia nasceu em 1820 e não recebeu os Santos Óleos pelo Padre Manuel Seraphim dos Anjos, deduzo que não o fez porque o mesmo talvez já tivesse sido transferido para outra paróquia. Não encontrei (até aqui) registro do destino final desse padre, nem outros registros de casamentos ou batizados com datas posteriores a 1819[²].

[¹] – Manuel Seraphim dos Anjos estava com 43 anos quando efetuou o casamento do Comendador Bento de Azevedo Maia.
[²] - Registro de um batizado à pag. 102 do livro de 1971 acima mencionado  (Casamentos de 300 a 500) – “Bento – 02-II-1819” – Padrinhos: Comendador Bento de Azevedo Maia e esposa.

2- Padre Manuel dos Anjos Barros (Prestou serviços em Resende entre 1835 e 1840):
Dá-nos notícia, o Dr. João de Azevedo Carneiro Maia, em seu livro “Notícias Históricas e Estatísticas do Município de Rezende Desde a sua Fundação”  (Tipografia da Gazeta de Notícias, 1891. E  2ª edição Prefeitura Municipal de Resende/Conselho de Cultura, 1986, com o título “Do descobrimento do Campo Alegre até a criação da Vila de Resende”), de que esse foi o padre que organizou, administrativamente e de fato fundou a Casa de Misericórdia de Resende em 1835, tendo também criado a Irmandade respectiva. Isso pode ser lido com toda clareza nas páginas 200 a 203 do livro de 1891; e  124/125 do livro reeditado em 1986 (2ª Edição). Conforme se vê ali o padre Manuel dos Anjos Barros, foi convidado para fazer esse trabalho em 1835, e o realizou com sucesso.  Mas o autor não menciona que esse foi o padre que casou seus pais, o Comendador Bento de Azevedo Maia. Não menciona esse detalhe pelo simples fato de que não foi esse o padre que casou seus pais e batizou suas irmãs. Se fosse o mesmo, certamente não teria omitido esse detalhe.
Além disso, o Dr. João Maia detalha que, as notícias biográficas sobre esse sacerdote vêm das “...que ficaram na memória de poucos contemporâneos. Era natural de São João Del Rei, província de Minas Gerais; de cor preta, mas nascimento livre. (...) Depois de ordenar-se, veio para a vila de Areias, não se sabe em que tempo, e de lá para Resende, na época que já referimos. Extremamente pobre, mal trajado, quase descalço, sua abnegação era tal que tudo quanto recebia de suas missas, repartia com os necessitados. (...) “...vindo a falecer em 1840 ou 1841, de uma anasarca, na idade de setenta anos, mais ou menos...”.
Ora, fica patente que são pessoas distintas, de épocas e missões diferentes por nossas terras, pois se se tratasse da mesma pessoa, além da igualdade dos  sobrenomes (dos Anjos), certamente João Maia não deixaria de mencionar isso. E o mais curioso, é que Itamar Bopp sabia desses detalhes (provavelmente tirados do livro de João Maia) mas não os mencionou na pequena biografia que publicou sobre o Manuel Seraphim, a quem dedica (erroneamente, em minha opinião) o nome da rua. Basta ver a ficha de anotações nº 2070 do próprio Bopp (frente e verso) para se ter certeza disso.

Somente a título de informação: Não encontrei no livro do Cel. Alfredo Sodré (Resende Cem Anos de Cidade – Vol. I) e nem no do Bopp com o mesmo título, a anotação de 1873 sobre o nome da rua, que teria sido concedido pela Câmara Municipal.
E é de suma importância observar que o Dr. João Maia conviveu com o padre Manuel dos Anjos Barros, visto que, nascido em 1820; em 1835 (data de criação da Casa de Misericórdia) tinha o mesmo, 15 anos; e um ano depois, com apenas 16 anos, foi para São Paulo cursar direito na prestigiada Faculdade de Direito de São Paulo, conhecida também como a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, fundada em 11 de agosto de 1827 por Lei Imperial . Dotado de precoce sapiência, dedicação aos estudos e memória extraordinária, não teria o Dr. João Maia se lembrado do padre que casou seus pais? Aliás, outro detalhe importante é que o próprio Comendador Bento de Azevedo Maia (que se casou em 1808 conforme dito no tópico acima), um dos fundadores da Casa de Misericórdia em 1835 e pai do Dr. João Maia; também foi contemporâneo do Manuel dos Anjos Barros, pois faleceu em 1859, aos 75 anos. Teria esse detalhe passado despercebido pelo autor (e seu pai), caso fosse esse o mesmo padre que casou seus genitores? Evidentemente que não. Não teria o pai comentado com o filho que esse era o mesmo padre que havia realizado o seu casamento em 1808? Evidentemente que sim!  
Pesquisando mais profundamente, encontrei até aqui, a muito custo e paciência, um registro de sacramento ministrado por Manuel dos Anjos Barros. Trata-se do casamento de Leonor de Souza Barros com Antonio Pinto Coelho de Souza Barros, realizado aos 07 de agosto de 1835 (ano da fundação da Casa de Misericórdia), “com provisão do Reverendo Vigário da Vara, Antonio Maria Ribas Sandim”, tendo por testemunhas, o vereador Padre Francisco do Carmo Froês e Domingos Gomes Jardim, os mesmos que, em 04 de abril de 1829 sugeriram a criação da Casa de Misericórdia através de subscrição popular. É um registro importante pois demonstra que o Padre Manuel dos Anjos Barros veio para Resende com a missão única de fundar e organizar a Casa de Misericórdia, e  só podia ministrar sacramentos mediante provisão superior. Por isso é tão difícil encontrar anotações dos atos sacramentais desse padre nos livros de genealogia do Itamar Bopp. Este registro está na pág. 97 (casamento 434, filho 2) do livro de 1971, já mencionado acima (Casamentos de 300 a 500).

Placa afixada na esquina com a Rua do Rosário


E assim, baseado nos documentos acima mencionados, concluí que tivemos dois padres com nomes e idades semelhantes, mas que serviram a Resende em épocas diferentes; e não apenas um Manoel dos Anjos, cujo nome correto seria, nos dois casos, Manuel.
Concluí também que; pela obra de cada um,  a Rua Padre Manoel dos Anjos no bairro Lavapés, homenageia o fundador da Santa Casa e sua Irmandade: MANUEL DOS ANJOS BARROS, o pobre e abnegado padre negro, de São João Del Rei (MG) e não  Manuel Seraphim dos Anjos, de Sorocaba (SP).

Espero que este trabalho de pesquisa seja utilizado para se corrigir um lamentável engano, e que se faça justiça por meio desta verdade histórica, corrigindo-se (via Câmara Municipal de Resende) o nome da rua em questão para Padre Manuel dos Anjos Barros.



Fernando Lemos – 15/06/2013 às 00:26h

(Jornalista e Pesquisador de História)

sábado, 20 de abril de 2013

"Almanack do Centenário de Rezende"



O "Almanack do Centenário de Rezende para o anno de 1902", é uma publicação organizada por Henrique Fonseca e Heitor Bittencourt e foi publicada pela Typographia e Papelaria "Fonseca" em 1902 na cidade de Resende, Estado do Rio de Janeiro. Reúne textos originais de repórteres, poetas, jornalistas, historiadores, políticos e representantes da grande imprensa da época, que descrevem como foram as festas e outras curiosidades da comemoração do centenário, em 1901, da elevação do Curato de Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova a condição de Vila em 29 de Setembro de 1801, quando passou a chamar-se simplesmente Resende. Um documento histórico que precisa e deve ser divulgado para o conhecimento de todos. 

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domingo, 17 de fevereiro de 2013

OS CEGOS


Imagem ilustrativa: Artefato Cultural.


OS CEGOS

                Eles eram quatro e fizeram parte da minha infância/juventude e, acredito, da dos resendenses  dos anos 50/60. Não tinham afinidades entre si. Eu os observava muito, e assim como o Sr. Gilberto Izoldi, Elias Atta  e muitos outros sobre quem ainda pretendo escrever, se tornaram (pra mim) figuras folclóricas e lendárias. Todo mundo os conhecia. Nunca os vi mendigando e não sei como faziam para se manter. Cada um com sua característica. Dois eram brancos e os outros dois, afro-descendentes (politicamente correto, correto?). Não sei o motivo da cegueira que os acometeu, e só de um eu conhecia a morada. O nome deste, fiquei sabendo dia desses pelo Silvinho da loja de uniformes esportivos da galeria Campos Elíseos. Era o Sr. Vargas, que morava no Alto dos Passos, perto da caixa d’água velha, pai do José Cláudio (hoje militar) e do Luis Cláudio. Homem bonitão, alto, olhos claros, cabelos sempre penteados (Gumex? Alguém se lembra?) barba sempre bem escanhoada, perfumado, bigodes aparados com perfeição, uma bengala branca, assim como suas calças, sempre limpas, sandália de couro natural e invariavelmente acompanhado do filho menor, de calcinha curta, suspensório e também com olhos muito claros, sempre arrumadinho e cheiroso. Mas a característica que o identificava era o assobio. Gente, ele assobiava com uma maestria ímpar. E seu assobio tinha dupla finalidade: encantar nossos ouvidos e avisar que tava passando. Eu morava no caminho que ia pra sua casa, por isso, quase todas as manhãs (ou sempre que ele saía) eu ouvia seu assobio e saía na janela para vê-lo passar. Acho que o menino-filho o acompanhava para ajudar a atravessar as ruas, sempre quietinho e com aquele olhar meigo, meio perdido, meio encantado com o pai que tinha... Uma imagem que jamais me sai da cabeça essa dele descendo a Padre Marques assobiando com o filhinho pelas mãos. Acho que seus limites eram de casa até a praça O.Botelho. De vez em quando o via em Campos Elíseos acompanhado da esposa (também sempre bem arrumada). O outro cego branco também tinha olhos claros, mas não o mesmo cuidado com o trato no vestir e se cuidar. Com a barba sempre por fazer, andava por quase toda a cidade com uma varinha pintada de branco na ponta, a camisa aberta até o peito e pra fora das calças. Sua principal característica era o eterno mau humor. Se a gente tivesse no seu caminho e ele esbarrasse a varinha na gente, sempre resmungava alguma coisa ininteligível. E me dava a impressão que vivia mastigando as palavras e a própria boca. Nunca entendi o que ele dizia e me assustava com sua presença. Mas acho que não fazia mal a ninguém. Os outros dois eram afro-descendentes e muito parecidos em tudo: Altos, magros, roupas um tanto quanto rasgadas e sujas; uma cordinha de sisal esgarçada amarrando a cintura das calças, chapéus de palha na cabeça, sacos de pano às costas (que será que carregavam ali? Nunca soube!) e varinhas de bambu pra servir de guia. Sempre rodeados de um bando de crianças, umas iam à frente e atrás, outras dos lados e muitos, mas muitos cães juntos. Por isso, quando passavam movimentavam a rua. Ambos fumavam. Acho que um deles pitava até um cachimbinho daqueles de barro, lembram? Mas o interessante no caso deles, é que não podiam se encontrar que a coisa ficava feia. Era briga na certa. E começava assim: Os cães de um e de outro se avançavam. As crianças iam apartar e acabavam brigando entre si. Choravam... Aí, os cegos começavam a esbravejar e dar varadas para acertar o cachorro do adversário. Acabavam acertando as crianças, que choravam e gritavam mais ainda. Eles, sem saber o que acontecia, gritavam cada vez mais um com o outro, os cães não se largavam, ganiam, uivavam, se mordiam e tome de varada pra lá e pra cá. Quem assistia, não tinha como entrar pra separar. Seria alvo fácil pra tomar bifa de vara sem ter nada com isso. Como separar esse aranzé todo? Era no grito meus amigos! Geralmente as senhoras das imediações deixavam seus afazeres, saiam às ruas e entre rindo (era engraçado mesmo) e gritando pediam, em nome de Deus, que parassem com aquilo. Sempre funcionava. A briga dos cães era interrompida com baldes de água fria. E cada um seguia seu rumo até o próximo encontro... Sabe-se lá onde seria... Pois um desses “próximos” se deu bem em frente à (já extinta) Cantina Portuguesa (alô Alfredo, aquele abraço!). Pra quem não sabe, fica aqui o registro: Ali existia um ponto de ônibus e táxis, bem no meio da Alfredo Whately (que era de mão dupla, se não estou enganado). Era chamado (não sei porque) Tabuleiro da Baiana. Essa construção de concreto e piso alto começava quase em frente à (hoje) loja Lamartine e se estendia até o Rei dos Salgadinhos. Além de ponto de ônibus e táxis, trabalhavam ali muitos engraxates profissionais, naquelas cadeironas grandes e altas, e onde a gente se sentia rei lá em cima. Também tinha gente vendendo pipoca, algodão doce e amendoim torrado naquelas latas com carvão acesso (mas que lembrança gostosa), além da turma que escrevia o jogo do bicho. Enfim, um lugar muito movimentado. Pois bem... Voltando ao assunto, eles se encontraram nesse ponto. E começou uma briga das boas. Por ali, não existiam senhoras pra gritar com eles e Deus devia ter ido tirar uma soneca. Mas tinham os que trabalhavam no tabuleiro da baiana. Gente muito boa... Taxistas, bicheiros e etc... Em vez de tentar separar, tacaram mais lenha na fogueira. E foi juntando gente. E as varas cantando no ar.  E a criançada gritando e chorando, a cachorrada se pegando legal... E a platéia se deleitava. Riam e corriam pra não levar varada. E foi esquentando cada vez mais... Até que um gaiato (dizem que foi taxista) gritou: “FACA NÃO!!! AÍ É COVARDIA!!!” Gente, os cegos ficaram alucinados. Um pensando que o outro tava armado de faca. Passaram a distribuir varadas a esmo, tentando atingir o outro, acabaram partindo pra cima da platéia que ria a não mais poder, e foi um corre-corre dos diabos. Até que ele se tocaram... Costas com costas. Pararam... Um pergunta em voz baixa: “Ce tá com faca?” O outro responde “Não!!!”. “Então agora é nóis  neles...” E partiram pra cima da platéia, os dois lado a lado como dois samurais enfurecidos. Deram ordens pras crianças pararem e separar os cães e botaram todo mundo pra correr. Depois que tudo se acalmou, sentaram no chão da calçada, lado a lado e um disse pro outro; “Ce vai pra onde?”. Pro Manejo foi a resposta. “Então eu vou pra praça...” Levantaram-se e saíram em direções opostas. Detalhe: O homem do algodão doce deu algodão pra toda a criançada, que com as carinhas lambuzadas de açúcar,  seguiram os pais (?), felizes da vida...
Assim, meus amigos, era Resende. Duvido que nos dias de hoje um deles conseguisse atravessar a rua, né não “Urbanus”? Teriam sido atropelados (eles e as crianças) há muito tempo...



©Fernando Lemos - Outubro/2005

Atualização: "Urbanus" era um dos pseudônimos do saudoso e querido amigo Toninho Capitão.
                    Este texto foi publicado, na época, no jornal "O Ponte Velha".
                    Para ler sobre Gilberto Isoldi, clique AQUI.
                    Breve publicarei uma homenagem feita ao Dr. Elias Atta, "O Médico das Canetas".
                    

terça-feira, 12 de junho de 2012

Resende 1898 - "Tudo como dantes..."


O pequeno texto abaixo, extraído do livro de Itamar Bopp*, nos leva a uma viagem pelo tempo e a certeza de que na política, quase nada muda com o passar dos anos. E assim a história vai nos ensinando e se repetindo... 

Ilustração: Rui Barbosa (centro) sobre um automóvel é cercado pela multidão.                           Foto: Revista "A Cigarra" do blog Iba Mendes 


" Irrompe o dissídio entre as correntes político-partidárias do Município. O governo do Estado prestigia a facção dirigida pelo deputado estadual Dr. Alfredo Whately e hostiliza a facção adversa, orientada pelo também deputado estadual Dr. Cunha Ferreira. Em consequência, é nomeado o Dr. Oliveira Botelho delegado de polícia do Município. Intervem próceres da policia central e estabelece-se um "modus-vivendi" no Município. Firma-se a primeira "coligação", que aliás pouco perdurou. Caminhava-se para uma eleição municipal. Convieram os paredros levar às urnas chapa mista. À undécima hora, fracassou o acordo. Por grande maioria, foram eleitos vereadores os Drs. Cunha Ferreira e Bruno Nora, da mesma facção partidária. Os adversários, alegando nulidade, recorrem para o Tribunal da Relação que, dando provimento ao recurso, manda proceder a nova eleição. Em consequência, renova-se a crise politico-partidária local. A esse tempo tendo-se exonerado o Dr. Oliveira Botelho, da função policial, é nomeado delegado o tenente Cavalcante, da polícia fluminense. A crise reflete-se na Câmara. Designando os Drs. Oliveira Botelho e Eduardo Cotrim (facção Whately) às funções de presidente e vice-presidente da Câmara, são eleitos em substituição, para os respectivos cargos, os vereadores Alfredo Amorim e Salvador Leite (da facção Cunha Ferreira). Assim termina no cenário político local o ano de 1898."

*Fonte: Bopp, Itamar: Resende - Cem Anos de Cidade  1848 / 1948. Gráfica Sangirard - 1978 

Comento: "Tudo continua como dantes, no quartel de Abrantes".
E um detalhe interessante para meditar: Hoje, um é nome de praça (Oliveira Botelho); e o outro (Cunha Ferreira), nome de rua. Ambos os logradouros no Centro Histórico. Onde termina uma, começa a outra... Ou vice-versa.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Timburibá: Localização exata no Alto dos Passos.

"O TYMBURIBÁ E O OVO DE COLOMBO"

O "Cruzeiro dos Passos" marca o local exato onde ficava o Tymburibá .
Veja mais fotos abaixo.


Para os menos chegados em nossa História, e para os muitos novatos que estão chegando em Resende, uma pequena introdução para que possam entender este artigo.
 
Contam nossos ancestrais, que existia por aqui uma espécie botânica não catalogada e provavelmente extinta, que os índios Puris chamavam de Tymburibá.
Uma árvore dessa espécie sobressaia no alto do morro dos Passos, onde hoje se localiza o cemitério. Era de grande porte e podia ser vista de longe. Quando Simão da Cunha Gago (fundador de Resende) chegou em 1744, ela provavelmente já existia. Acredita-se que fosse bicentenária (ou mais) quando caiu em meados do século 19. A existência desse madeiro não é lenda, é real e está registrada em livros de nossa história, além de dar nome a uma rua, um jornal local e ter inspirado um dos mais ilustres de nossos historiadores a escrever “A Lenda do Timburibá”; uma bela página literária que poucos conhecem na íntegra.
Dentre os mistérios que envolvem a história dessa árvore, um dos mais intrigantes era: Onde afinal ficava exatamente o Tymburibá?
Resposta adiante, depois de um pouquinho de história...

Em 29 de setembro de 1901, quando se comemorou o primeiro centenário da elevação do povoado curado de N. S. da Conceição Campo Alegre da Paraíba Nova à categoria de Vila com o nome de Rezende, a cidade viveu uma de suas mais vibrantes festas até então vista por essas paragens. Foi um movimento tipicamente popular de estrondoso sucesso e sem a participação oficial dos mandatários da época. O povo organizou e bancou tudo, com o apoio da imprensa local e carioca, sob a batuta do poeta resendense Luiz Pistarini, do jornalista Alfredo Sodré e muitos outros. Foram muitas as festividades: Sessões cívicas e literárias, ereção do Obelisco do Centenário no então Largo da Constituição, hoje Praça do Centenário, visita aos colégios e a personalidades da época, quermesse, desfile cívico, grandioso baile, cinco bandas encheram a cidade de música e muitas outras atividades. Uma delas, que também fazia parte da comemoração oficial, foi a “romaria ao Alto dos Passos para a ereção do Cruzeiro simbólico, oferenda piedosa de Sra. Sara Gomes de Araújo”.  Mal sabia D. Sara de Araújo que ao erguer o tosco cruzeiro de madeira naquele dia, estava entrando para a história. Para entendermos o porquê disso, voltemos mais um pouquinho no tempo...

Em 1862, os vereadores Joaquim Rodrigues Antunes e Modesto Batista Roquete, fazem a indicação para que ”a rua “Paraíba” (a hoje Simão da Cunha e primitivamente de “Baixo”), fosse prolongada ao morro dos Passos, em direção ao Tymburibá, que secularmente ramalhava ao cabeço da colina, frondosa e galharda, e inspirou a João Maia rendilhada página literária – A Lenda do Tymburibá. Assim ficou resolvido. Por motivos não apurados, a projetada rua não chegou ao termo determinado pelo poder público. Terceiros se assenhoraram da porção de terra que demora ao sopé do morro marginal a Rua do Rosário. Assim, a rua de 62 não alcançou o local da árvore histórica e onde hoje se soergue o “Cruzeiro”; expressiva oferenda da Sra. Sara Gomes de Araújo (...) às festividades cívicas dos resendenses marcando o primeiro centenário da instalação oficial da Vila de Resende.” Portanto, quando a indicação da rua foi feita, o histórico Tymburibá ainda existia, pois sua queda se deu por volta de 1874. Fica claro que o Cruzeiro do Alto dos Passos – na elevação atrás da Igreja do Senhor dos Passos - indica com exatidão, o local onde se erguia o lendário, misterioso e histórico Tymburibá.  Além disso, o Cruzeiro é totalmente desalinhado com a rua que o abriga (Rua Cecília de Souza), o que reforça e comprova ser ali o local em que foi erguido originalmente. E para confirmar, uma placa de mármore afixada ao pé do mesmo, esclarece: “Salve 29 de Setembro de 1901 – Reconstruída em 1917. – Lembranças dos Filhos de Rezende”.  Os moradores do Alto dos Passos têm agora mais um ponto turístico e motivos para se orgulhar e comemorar no bairro.
E as autoridades municipais, a obrigação de homenagear Da. Sara Gomes de Araújo e o Tymburibá, dando seus nomes a logradouros no local. Ou coisa parecida. Mais uma placa, talvez...
Ou mesmo um memorial contando a "Lenda do Tymburibá" e sua história. Porque não? Em Ica (Peru), no Oásis de Huacachina (lá também há uma lenda), vi algo que poderia ser aplicado aqui que se tornaria, além de atração turística, fonte de cultura e certamente divulgaria nossa história para toda a população. 

Desde que comecei a pesquisar sobre a história de Resende, anos atrás, muitas perguntas e dúvidas me incomodam. Dentre elas, duas em particular me despertavam interesse: Onde ficava o Tymburibá e porque a Rua Simão da Cunha (Gago) - fundador da cidade - era tão minúscula, indo apenas do antigo Asilo Nicolino Gulhot até a esquina do C.C.R.R. e a partir dali, passava a chamar-se Tymburibá, que se estende em linha reta até a Rua do Rosário (se avançarmos nessa reta, morro acima, chega-se exatamente ao “Cruzeiro” do Tymburibá). Com a explicação acima, ficam ambas esclarecidas, pois a Rua Tymburibá, na realidade, originalmente era a Simão da Cunha, ou “de Baixo”. Nasci, morei – e fui criado – na esquina da Eduardo Cotrim com a Tymburibá e nos referíamos a ela como “Rua de Baixo”, um costume herdado de meus pais, avós e vizinhos mais antigos, que só a chamavam dessa forma. A Rua Tymburibá só ganhou esse nome por volta de 1869, sete anos após a indicação para a extensão da Simão da Cunha até o gigantesco Tymburibá.

Muitos amigos, pesquisadores, alguns historiadores e até Acadêmicos de nossa História me perguntavam e especulavam onde seria a localização exata da lendária árvore. A resposta estava, desde 1901 - por obra de Da. Sara Gomes de Araújo - no esquecido Cruzeiro do Alto dos Passos, como contado no "Almanack do Centenario de Rezende" (vide atualização abaixo), assim como no volume I do livro do jornalista Alfredo Sodré "Rezende os Cem Anos da Cidade" - e, replicada no livro homônimo de Itamar Bopp de 1978.
E um mistério maior precisa ser esclarecido e desvendado: Onde foi parar o Volume II do livro do Cel. Alfredo Sodré? Sim, porque se tem um titulado como "Volume I", fica evidente a existência do segundo, certo? Será que um dia vamos resolver esse? Quem sabe...

O mistério do local onde o Tymburibá se exibia, era como a metáfora do “Ovo de Colombo”. Estava na cara... Parecia impossível saber, mas... de simples solução. Bastava uma leitura mais cuidadosa dos livros que dispomos há anos.

E porque não passarmos a chama-lo, a partir de agora, de: “O Cruzeiro do Tymburibá”?

© Fernando Lemos – 15/02/2012 - Atualizado 22/08/2015 às 00:58h

Fontes:
Fonseca, Henrique e Bittencourt, Heitor - Almanack do Centenário de Rezende - (Typographia e Papelaria "Fonseca" - 1902)
Sodré, Alfredo - Rezende Os Cem anos da Cidade - Volume I - (Gráfica "A Lyra" - 1948)
Bopp, Itamar – Resende – Cem Anos de Cidade 1848-1948 (Gráfica Sangirard – 1978) 


Para saber mais:
Timburibá: A busca continua... – http://bit.ly/HEEENt
 “A Lenda do Timburibá” –  http://bit.ly/HOQzdC
 “A Morte de Timburibá” –  http://bit.ly/HCx3m4

De costas para o "Cruzeiro", em linha reta, vê-se a Rua Timburibá.
Virando-se 180°, em linha reta e de costas para a Rua Timburibá: o "Cruzeiro"
Aos pés do "Cruzeiro", a placa comemorativa e indicativa.

Sua disposição em desalinho com a rua, é indicação de local exato,
pois as construções que o rodeiam, não existiam em 1901.
Rua Timburibá: Seguindo em frente,em linha reta, temos lá no alto, o "Cruzeiro"
O "Cruzeiro" dos Passos com a cidade ao fundo.

Atualização - 22/08/2015:
Em pesquisa mais recente, encontrei a confirmação definitiva da localização exata do lendário Tymburibá, no "Almanack do Centenario de Rezende" publicado em 1902 referente às festas  havidas em 1901 por conta das comemorações do 1º centenário da criação da Vila de Rezende em 29 de Setembro de 1801. As imagens abaixo são das páginas do "Almanack": 


Capa
´Página 4

Página 186

Página 197

Página 231


Nota:  No fascículo nº 1 (Da terra dos Puris à cidade de Resende) da série “Resende – Cidade Histórica” (Jornal Beira-Rio), foi publicado que a árvore conhecida popularmente como “orelha de macaco, timburi, timbaúba, etc.” (Enterolobium contortisiliquum) seria o nosso Timburibá; o que não é verdade. Lamentável engano publicado no blog “Aldeia Global”, que me induziu ao erro, assim como a toda equipe que trabalhava no projeto. Aproveito para corrigir e do que assumo inteira e total responsabilidade.  (Fernando Lemos)



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