***RUI BARBOSA***

***RUI BARBOSA***
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." (Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)
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sábado, 6 de agosto de 2011

E o casarão caiu...

Prédio onde funcionou o jornal "A Lira" - Foto: Fernando Lemos

Fiquei ali, parado por um bom tempo, olhando as ruínas do que restou do casarão da Praça Oliveira Botelho. Durante toda a minha vida, ele lá esteve. Imponente e majestoso; me passava a impressão de ser uma cidadela indestrutível. Mas... Ruiu. Não importam os motivos. O fato é que veio abaixo. Acabou, e junto com ele parte da história de nossa  maltratada  Resende. E pensar que existe um “projeto” para “revitalizar” o local... Seria cômico. Mas é trágico!  Na mídia, as notícias sobre o desabamento sempre vêm acompanhadas de que ali funcionou o extinto e centenário jornal  “A Lyra”, que também se extinguiu pela incúria de seus proprietários, a Casa Modelo e uma “revenda de frangos” da também  desaparecida Granja 3 Pinheiros. Isso nos passa a idéia de que o casarão não era mesmo importante. Que pode haver de histórico num prédio que abrigou um jornal morto, uma loja quebrada e uma revenda falida?  Só valeria o fato da sua arquitetura colonial? Não! O casarão era parte importante de nosso pretenso  “Centro Histórico”,  anunciado em placas pela cidade a guiar turistas que se depararão com um amontoado de madeira velha, ainda sustentada e se equilibrando sabe-se lá como e até quando, sobre barro batido, mostrando as entranhas como se fosse um cadáver a ser removido por um rabecão que nunca vai chegar, exalando o mau cheiro dos insepultos e a triste visão da destruição anunciada pelo desprezo geral à nossa história. Não existe nem uma placa informando a data de construção. Nada. Nossa história é feita de amnésia. Digo isso, porque ninguém se lembra do jornalista, poeta, escritor e gráfico Randolpho Souza, que no mesmo prédio e bem ao lado da Casa Modelo  tinha um escritório e uma gráfica também. Era a Gráfica Randolpho, com “ph” e tudo. Saibam mais pois... Em 1924 ele fundou o septuagésimo sétimo jornal de Resende; segundo uma lista elaborada por Israel Franco Belga (outro esquecido), que editava a revista A Granja. Era o  “A Opinião”, redigida por Arcílio Guimarães e pelo Dr. Ulysses Fabiano Alves. Não sei até quando circulou  (minhas pesquisas não foram suficientes para precisar essa data), mas em setembro de 1931 ainda circulava, com certeza absoluta.  Por essa época, ele residia na Rua Eduardo Cotrim, 36 na descida para o Lavapés. Era um homem espigado, meio mulato, usava óculos de aro fino e preto, além de esconder a calva sob uma... Peruca! Trajava-se com esmero, sempre de terno com colete, chapéu coco, gravata borboleta, bengala com cabo de prata e... Polainas! Muito inteligente e versado, diziam que falava várias línguas. Lembro-me bem dele, porque vivi momentos do século 19 no seu escritório, bem ali onde existia o casarão, num dia perdido dos anos 60. Ele sempre recebia os amigos no escritório para um bom papo, ao som das rotativas da gráfica. Eu trabalhava no Banco Ribeiro Junqueira (onde hoje é a Taco) na função de contínuo, entregando avisos aos clientes. Nessa tarde, entrei para entregar-lhe a correspondência bancária e, surpreendentemente, me mandou sentar.  Observei que os presentes trajavam roupas de época. Não que fosse um encontro saudosista. Era assim mesmo que eles ainda se vestiam. Presentes à reunião vespertina: Sr. Adílio Monteiro, Sr.Manudo (um dos netos do Cel. Albino de Almeida) e um outro importante cidadão que não me recordo o nome (amnésia histórica?). Eles falavam de política, e o ambiente enevoado com a fumaça dos charutos que fumavam, o relógio antigo pendurado acima da cadeira do jornalista, a estante repleta de livros desarrumados, o porta-chapéus, as bengalas, os retratos antigos nas paredes, o candelabro aceso com fracas lâmpadas, a mesa de trabalho, o mobiliário antigo, o linguajar deles, me transportaram ao passado. Quando finalmente ele se interessou em saber o que eu queria, parecia que eu havia voltado no tempo. Entreguei-lhe a correspondência, pedi que assinasse o livro de protocolo e, sob o olhar atento dos palestrantes, me despedi educadamente e saí. Voltei ao século 20 como se saindo da máquina do tempo. Dei uma olhada pra dentro do escritório e percebi que falavam cada vez mais exaltados. Montei  na minha bicicleta e segui meu caminho, tendo a impressão que tinha vivido um sonho. Foi mesmo um momento especial. Fica aqui minha homenagem ao esquecido jornalista Randolpho Souza e aos escombros do casarão, onde uma frase se pode ler numa das paredes ainda de pé, como um prenúncio do que está por vir: “RESENDE O FUTURO ESTÁ AQUI”.

Por falar em política, você sabia que foi às 11:40h do dia 28 de Novembro de 1914 que as águas do Ribeirão Bonito (nascente a 2.400m sudoeste das Agulhas Negras) jorraram pela primeira vez  nas caixas de distribuição urbana de Resende? Pois é... Já consumimos água de primeira qualidade no passado; pura e cristalina... Hoje, bebemos água tratada do poluído Paraíba do Sul. E ainda vão conceder o serviço da Resende Águas pra terceiros!  Então, vale a  frase na parede do casarão, né não?

Fernando Lemos – 2007

6 comentários:

  1. Gostei e achei muito interessante a matéria sobre o antigo casarão da falecida casa modelo, em resende,rj.

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  2. Obrigado pelo comentário, Charles...

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  3. Caro Fernando,
    Concordo em parte. Lamentavelmente o casarão ruiu deixando apenas seus vestígios na memória.
    Infelizmente falta cada vez mais educação e cultura para que as novas gerações percebem a importância da história e de sua preservação em benefício de todos.

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  4. Obrigado pelo comentário, Renato Serra. É um prazer vê-lo por aqui.

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  5. Adentrando seu prestigioso blog nesta noite em que o Brasil ainda crepita de indignação, 27 de junho de 2013, mergulhei nas suas memórias sobre o casarão onde pulsara a Lira. Regressando a Resende depois de muito tempo cronológico e a pior das ausências, a da memória, encontrei fortes referencias da minha distante infância nos dois casarões remanescentes que pontificam na praça, um já dando mostras da fadiga do descaso, o outro, muito mais importante sob o ponto de vista histórico, eis que de lá a rainha do café comandara seu império. A pedido de crianças que editavam um romântico jornalzinho escrevi na época o "réquiem por uma praça" sob o impacto negativo da degradação do prédio que poucos anos depois tombaria para o vazio do esquecimento. Não citei pessoas que lá viveram seus dias naquela edificação magnífica como seu Randolpho, que bem conheci, seu Ademar Vieira e muitas figura ilustres. Penitencio-me deste fato e revelo o motivo desta postagem tardia: É que lembrei do seu Levi, idoso encanecido que lá morava e que altas horas assombrava a praça com seu libelos.Anos mais tarde o velho inspirou-me verso deficiente, mas sincero."Quando o ébrio mais retardatário, sumia no mistério de uma porta, seu Levi, o poeta, o visionário, gritava versos pela rua morta... abrs soma

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    1. Obrigado amigo Soma. Nem precisava assinar. Seu estilo é inconfundível pela lucidez, delicadeza e propriedade com que expõe seus argumentos. E receber um comentário de alguém como você, é honrosamente gostoso.
      Muito obrigado mesmo!

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